Minha pátria é a língua portuguesa


Quando pensamos sobre os idiomas que falamos, normalmente nos referimos aos estrangeiros e não ao nosso próprio, embora falar bem o idioma nativo seja uma tarefa que demanda o mesmo trabalho a ser feito para aprender um "outro idioma": estudo, leitura, dedicação, empenho, constância. E boas fontes de inspiração.

Para conhecer bem o idioma nativo a ponto de apaixonar-se por sua riqueza é fundamental contar com bons "orientadores" que estimulem o mergulho na magia das letras, e não só a memorização mecanizada de regras muitas vezes inexplicáveis. E estes não precisam ser, necessariamente, professores de Português ou professores formais. Lembro-me que a maioria dos que me ensinaram esta disciplina, tanto no colégio particular quanto no público, foram pessoas visivelmente desmotivadas, que ministravam suas aulas de maneira automatizada, trabalhando com textos pouco interessantes e nas quais a criatividade brilhava por sua ausência, resultando então em longos encontros que custavam a terminar, enfadonhos, monótonos, opacos.
Sempre gostei de escrever e de ler, mas a paixão pelo Português foi em mim despertada somente depois "de grande", pelo meu amadíssimo amicíssimo Hamilton, professor de Teatro-Educação com o qual tive o privilegíssimo de trabalhar em algumas ocasiões (mas que nunca foi meu professor formal, e nem sequer de Português). Ele é detentor de uma cultura larga e extensa, assim como as maravilhosas largas e extensas histórias que conta, nas quais umas vão surgindo de outras (e assim o que começou em Bagé acaba terminando em Pisa), em função de sua larga e extensa experiência de vida. 
Lembro-me muitas vezes de escrever a ele alguma mensagem ou e-mail com pressa ou mais informais, nos quais aparecia algo do tipo "tu quer que eu pegue o documento pra ti" ou "ela tá te esperando na sala" e a primeira coisa que ele dizia, independente da importância do assunto e com seu bom-humor tão característico, era: "onde já se viu uma professora de História escrever tu quer"... E outras tantas vezes que eu perguntava como se escrevia alguma palavra, a resposta era "procura no dicionário, assim tu não esqueces mais" (esqueceS mesmo, com a maior naturalidade de quem está acostumado a falar bem). De modo que lá ia eu perguntar para a "coleção organizada, geralmente de forma alfabética, de palavras ou outras unidades lexicais de uma língua ou de qualquer ramo do saber humano, seguidas de sua significação, de sua tradução ou de outras informações sobre as unidades lexicais", que me mostrava não só a forma, como o conteúdo, ou seja, vários outros sinônimos com os quais eu poderia enriquecer o meu Tesouro de Palavras. A partir de criar este hábito, já nunca mais pude escrever sem estar com um dicionário por perto - e como facilitam a nossa vida os virtuais, ao alcance de quem queira visitá-los!!!


icionário", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/dicion%C3%A1rio [consultado em 22-05-2014].
1. Colecção organizada, geralmente de forma alfabética, de palavras ou outras unidades lexicais de uma língua ou de qualquer ramo do saber humano, seguidas da sua significação, da sua tradução ou de outras informações sobre as unidades lexicais.

"dicionário", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/dicion%C3%A1rio [consultado em 22-05-201que me mostrava não só a forma, como o conteúdo, ou seja, vários outros sinônimos com os quais eu poderia enriquecer o meu Tesouro de Palavras. A partir de criar este hábito, já nunca mais pude escrever sem estar com um dicionário por perto - e como facilitam a nossa vida os virtuais, ao alcance de quem queira visitá-los!!!
Foi também com o Hamilton que comecei a admirar um dos maiores professores de Português: Chico Buarque - outro dos nossos escritores imprescindíveis. Ele sempre cantarolava músicas dele (frase escrita assim propositalmente) e de verdade é assombroso o que o Chico consegue fazer com as palavras.
Tomar poções - ou porções - de Chico Buarque é infalível para que nos apaixonemos pela nossa língua portuguesa, e se for em forma de teatro, acaba sendo, além de infalível, eterno. Deixo com vocês um trecho do magnânimo musical Gota d´água, no qual é cantada a música Flor da Idade, escrito pelo Chico e Paulo Pontes em 1975, inspirado na tragédia grega Medeia, que retrata, em forma de poesia pura, uma grande parte da realidade brasileira. Vejam como palavras tão simples podem formar tanta beleza!!! 






Não tenhamos vergonha de falar bem e corretamente. Isto não significa ser pedante, e sim fluente. Sejamos fluentes em Português! Palavras são mágicas, e eu particulamente penso que conseguem sim expressar todas as nossas emoções, sentimentos, sensações, impressões... Não há nada que uma palavra não possa definir - a questão é conviver com elas, ou com pessoas que possam estimular nosso encantamento por elas... Tenho certeza que em todas as vidas existem um Hamilton e um Chico (em forma de vó, vô, professor/a, escritor/a, etc, etc, etc) capazes de fazer com que nos apaixonemos pelas palavras e pelas extraordinárias histórias que só elas são capazes de criar, transmitir e perpetuar. 



Hamilton Braga é uma das pessoas que mais admiro e mais admirarei em toda a minha vida. É daqueles cuja vida daria um livro mesmo, mas de verdade verdadeira - quem sabe agora ele se anime a começar a escrever, porque já perdi a conta de quantas vezes pedi :D . É um Tesoro de Palavras vivo, e um Tesouro de Vida eterno! A MIL TONS.


Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 
http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx


* O título desta postagem é uma frase de Fernando Pessoa (ou Hamilton ou Chico para muitos, e do qual já falaremos também muitas e muitas vezes)