Por que, para que e para quem aprendemos um idioma?



Aprendi Inglês por inércia. Assim como boa parte das pessoas, acredito. Na minha época de colégio, esta era a única opção de Língua Estrangeira e ainda mais, inquestionável. Parecia ser um consenso que o Inglês era fundamental para encontrar um trabalho, para ter boas oportunidades profissionais, para poder viajar, para "crescer na vida", enfim, era fundamental e ponto. Não se ensinava só Inglês, mas também a cultura anglo-saxã, o “way of life”, direta ou indiretamente, como modelo a seguir.

Nunca pensei em duvidar desta atitude vinda das “autoridades responsáveis” e, acreditando que precisaria do Inglês para qualquer caminho que escolhesse, tratei de estudar este idioma com grande afinco, chegando a aprendê-lo bastante bem.

Mas aí, no meio do caminho tinha o flamenco. Tinha o flamenco no meio do caminho. 

Meu primeiro contato com esta dança foi através do filme “Bodas de Sangre”, de Carlos Saura, exibido em uma disciplina da faculdade, que causou-me uma paixão instantânea e fulminante. Comecei a dançar e foi então que tive realmente o interesse de aprender um idioma, para entender o que se cantava naquelas músicas tão emotivas, para entender a(s) cultura(s) que havia(m) formado esta arte tão única, tão complexa e tão espetacular, e porque tinha decidido que iria morar na Espanha.

                                Bodas de Sangre. Película completa.1981.

Mas aí, no meio do caminho tinha a Laura. Tinha a Laura no meio do caminho.

Minha querida amiga Laura é argentina mas mora no Brasil desde criancinha. Tradutora, intérprete, graduada em Letras, quatrilíngue: Espanhol, Português, Inglês e Francês (por enquanto).

Nós tínhamos nos conhecido na I Bienal do Mercosul – fomos a primeira geração! – e trabalhávamos no mesmo espaço. E desenvolvemos uma sintonia fina, bem fina. Havia algo como um grupo de estudos de Inglês na casa dela, do qual fui gentilmente convidada a participar. Lá ia eu, querendo aprender todo o Inglês do mundo, prestando atenção sem respirar. Mas tomei coragem e perguntei se, ao invés do Inglês, poderíamos praticar Espanhol. E virei meio que uma aluna particular. 

E eis que acaba a inércia e começa a aceleração, a atividade. Foi neste momento que uma Língua Estrangeira começou a fazer sentido de uma maneira não mais automática: as palavras passaram a ter cores, ritmos, musicalidade, formas…

Y bien, como buena argentina, me presentó a Mafalda. Então percebi que a minha relação de amor com o Espanhol seria realmente eterna (e vou até comentar que esta frase é literal pois meu marido é espanhol e de verdade moro na Espanha). Ela emprestou-me, gentilmente, (tudo o que ela faz é sempre gentilmente) várias fitas VHS com as espirituosas historinhas inteligentes da Mafalda y sus amigos, às quais eu e o meu irmão assistimos à exaustão, sabemos os diálogos de memória e ainda hoje utilizamos muitos deles nas nossas conversas cotidianas – de modo que ele também aprendeu. Quando um idioma brilha, quando temos alguém/algo que nos inspire a aproximar-nos dele, aí então ele faz sentido, e aí então temos que aprendê-lo.  


  
Assim, aprendi Espanhol em movimento. Primeiro com a dança, com aqueles bailaores/as y cantaores/as tão intensos, com sentimentos à flor da pele traduzidos em letras cheias de vida, e logo com a Mafalda e seus amigos, que riam e conversavam; que estavam igualmente cheios de "vida". E acredito que este contato em movimento tenha feito toda a diferença. Para aprender de verdade um idioma, deve existir a sintonia fina.

Minha resposta para a pergunta deste post é: teu projeto de vida. Por que? Porque o teu projeto de vida requer. Para que? Para que o teu projeto de vida se materialize. Para quem? Para que tu possas realizar o teu projeto de vida. A motivação para aprender um idioma tem que ser interior. Que as crianças sejam muito pequenas para terem consciência até se pode debater. Mas por um lado, não me parece discutível que elas recebam estímulos multiculturais que permitam o reconhecimento das suas motivações interiores. E por outro lado, toda a proximidade histórica, social, étnica, gastronômica, musical, política, etc, etc, etc, - e principalmente idiomática – dos países latino-americanos igualmente parece-me indiscutível. E deveria ser mais valorizada, mais visível. Acredito que já existam mudanças importantes; es decir, o Espanhol está pouco a pouco mais presente nas escolas. Como um reencontro, um reconhecimento. Mas a caminhada é larga.  

Para quem não possa ter uma Laura, siempre nos quedará Mafalda. E/ou o flamenco. E/ou Eduardo Galeano. E/ou Gabriel García Márquez. E/ou Compay Segundo. E/e toda a cultura hispânica que tanto nos diz respeito e que tão pouco conhecemos.

* Quero deixar claro que este texto é uma reflexão. Também trabalho com o Inglês mas sou completamente apaixonada pelo Espanhol, pelo Alemão e pelo Português (bem, essa frase não é literal ;D ).

Laura y yo, ¡en España! Aqui está lo que en aquellos tiempos era sólo un sueño... "¿Qué es la vida? Un frenesí. ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción, y el mayor bien es pequeño: que toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son." (Calderón de la Barca)