Natal e Ano Novo com frio??



Acredito que estou uns bons 90% adaptada a mi querida España. Mas há os 10% que dificilmente chegarão a 100, e que dizem respeito justamente às festas de final de ano. 

As comemorações aqui são muito bonitas, não posso negar e nem ser injusta, mas falta CALOR, literalmente. Para mim é muito estranho ter inverno no verão e verão no inverno, e não consigo me adaptar, nem biologicamente. E claro, quando digo que o "normal" é Natal com calor, isso sim que causa um grande estranhamento. Não diria que é um "choque" de culturas; digamos que é uma "pororoca" de culturas.

Mas então, vamos conhecer um pouco sobre la Navidad y la Nochevieja. 

NAVIDAD

LUCES - Toda a cidade recebe uma iluminação especial, principalmente no centro. Nos tempos atuais de crise, esta atitude gera polêmica, em relação à verba destinada para iluminação que poderia estar sendo utilizada para fins mais sociais, mas por outro lado, também é certo que gera uma importante afluência de turistas que movimentam bastante a economia, sobretudo no setor turístico - hotéis, bares, restaurantes... É sim uma situação delicada que possui os dois lados em tênue equilíbrio, mas já que as luzes sempre são acesas, que pelo menos iluminem também os nossos corações. E há igualmente decorações florais muito bonitas.

 Em 2014, a iluminação da rua mais charmosa de Málaga, 
a calle Larios, foi inspirada nas igrejas góticas.

COMIDA - Outro assunto polêmico. Parece que no Natal temos que comer e comer e comer. Mesmo sem vontade, mesmo sem necessidade. Mas vou falar sobre as diferenças gastronômicas. De um modo geral a cozinha espanhola - mediterrânea como um todo - é extremamente saudável. Como aperitivos sempre estão camarões, queijos e o famoso jamón (o presunto cru). Já o prato principal fica mais a critério de cada família, de cada pessoa. O que sim são muito tradicionais e específicos desta época são os doces, geralmente feitos à base de amêndoas - herança árabe - como os mantecados, polvorones, mazapanes e turrones. Para mim, acostumada ao leite condensado, parecem até meio salgados e são um pouco pesados; por isso, doces do inverno. Aqui na Espanha há a rede alemã de supermercados Lidl, então podem ser encontrados também doces alemães como as Lebkuchen, muito parecidas ao pão de mel, mas com um toque mais marcante de especiarias - sim, mais apimentadas. Deliciosas!

 Surtido de turrones, polvorones, mantecados
  
LOTERÍA - A Lotería de Navidad é uma senhora instituição, que acontece desde 1812, sempre no dia 22 de dezembro, e que reparte uma grande quantidade de dinheiro em prêmios de todos os tamanhos e bastante fragmentados. Os números estão gravados em bolinhas, retiradas de um globo giratório, e são cantados por crianças do colégio San Ildefonso, outra instituição antiquíssima (suas origens datam de 1543) que tem uma importante atividade social ao proporcionar educação e melhores perspectivas às crianças mais desfavorecidas. 

Uma guriazinha canta o número, e a outra canta o valor do prêmio 

VILLANCICOS - são as tradicionais e seculares canções de Natal, assim chamadas provavelmente em função de sua origem popular - villanos, os habitantes das villas - trocando em miúdos, os camponeses. São geralmente bastante alegres, mas também depende um pouco da interpretação que se queira fazer. Há os villancicos rocieros, aflamencados, e as letras são muito bonitas. Escolhi um mais simbólico e mais reflexivo:

El Tamborillero, interpretado por el cantante Raphael

El camino que lleva a Belén
baja hasta al valle que la nieve cubrió.
Los pastorcillos quieren ver su Rey,
le traen regalos en su humilde zurrón
al Redentor, al Redentor.

Yo quisiera poner a tus pies
algún presente que te agrade, Señor,
mas Tú ya sabes que soy pobre también
y no poseo más que un viejo tambor.
En tu honor frente al portal tocaré
que con mi tambor!

El camino que lleva a Belén
voy marcando con mi viejo tambor,
nada hay mejor que yo pueda ofrecer,
su ronco acento es un canto de amor
al Redentor, al Redentor.
Cuando Dios me vió tocando
ante El me sonrió.

PRESÉPIO - aqui, se chama Belén. E são impressionantes pelo tamanho e a riqueza de detalhes que apresentam, pois não se restringem ao estábulo e sim recriam todo o espaço ao redor. Há belenes realmente enormes montados em lojas, centros culturais, hospitais, escolas, etc, e é muito comum promover concursos para encontrar o presépio "mais bonito" (todos são!!) mas mesmo nas casas se dedica um espaço privilegiado para eles.

Este Belén foi confeccionado na comunidade autônoma de Cantábria, ao norte

      
NOCHEVIEJA

O aspecto mais diferente do Reveillón é a uva. As uvas. As 12 uvas, que devem ser comidas a cada badalada do relógio, transmitida pela televisão. Dizem que traz sorte, e é uma tradição bem antiga. É também engraçado porque são comidas com muita rapidez, gerando as também tradicionais engasgadas. Em relação a comidas, não há costumes estabelecidos como as nossas lentilhas; mas o champagne sim é igual e depois quem quiser sai para dançar. E quem passou toda a noite de marcha, costuma comer churros com chocolate quente quando amanhece.  

 Temos que comer as 12 uvas nas doze badaladas para ter sorte!!

DÍA DE REYES

Na madrugada do dia 5 para o 6 de janeiro é que as crianças recebem os presentes, trazidos pelos Reis Magos. Sim, sem dúvida o consumismo é um enorme problema que tem que ser estancado o quanto antes. Mas, SE as crianças ganhassem só um presente, ou presentes alternativos, reciclados, essa celebração, que realmente é muito bonita, poderia ser vivenciada de uma maneira ainda mais mágica e sensível. No dia 5, à tarde, é feita, em todas as cidades, a Cabalgata de Reyes, como um mini desfile de carnaval, com pequenas alas e pequenos carros alegóricos, todos relacionados ao universo infantil. De quando em quando, os artistas participantes jogam balas para o volumoso público, é muito divertido. E claro, as grandes estrelas são os Reis Magos. É um momento muito bonito, os adultos também participam e ficam bem felizes. Essa tradição "deveria" ser exportada, é muito muito bonita, alegre, colorida, animada. E na manhã do dia 6, as crianças recebem seus presentes. Há o costume de fazer às vezes uma brincadeira que é dar carvão no lugar de presentes se elas "não se comportaram bem", e existem inclusive carvõezinhos comestíveis. Bem interessante. A mentalidade consumista voraz vem sendo substituída, talvez não na velocidade desejada, mas há sim muito incentivo para comprar menos e criar mais. E chegará o momento em que essa bonita tradição de Reyes vai conviver com uma nova, de presentear abraços e mensagens e sorrisos, que são mais do que suficientes.   

¡Los reyes!

 Uma parte do desfile

Também na manhã do dia 6 se come o Roscón de Reyes, um pão doce com frutas cristalizadas e recheado com nata, bem gostoso, e que sempre traz uma surpresinha dentro.  

 ¡El roscón!
 

O que podemos pensar sobre isso tudo? Realmente, não há UMA maneira de celebrar o fim de ano ou, melhor dizendo, o começo de um ano novo, o recomeço da esperança. É interessante conhecer costumes diferentes e, ao mesmo tempo, podemos também criar costumes novos. 

Que cada um possa celebrar como o seu coração mandar, sem receitas, sem padrões, sem superficialidades. É inegável que estas festas têm uma magia especial, uma energia positiva muito mais concentrada... e que não precisam ser efêmeras, e que podemos alimentar durante todo o ano, com muito trabalho, muito empenho e muita esperança... e toda essa luz despertada possa continuar brilhando, e iluminando nossos caminhos.