Eduardo Galeano. No al miedo.



Processar a morte é muito complicado, principalmente quando se trata de uma pessoa que, mesmo que desconhecendo por completo a nossa existência, nos acompanha desde cedo e sempre. 

O planejamento para este mês era escrever outra série de textos dedicados à dança, conforme venho fazendo em alguns meses específicos. Porém, há uma coisa maior que o planejamento. A Vida. E dentro dela está a Morte. E no dia 13 de abril a Morte foi visitar o Eduardo Galeano, o autor que mais admiro e que mais me inspira há mais de 20 anos. Chega a ser até um pouco curioso porque o nome desta série dedicada à dança chama-se Las Palabras Danzantes, justamente em alusão a um dos livros que ele escreveu, Las Palabras Andantes, que é o meu preferido. Para mim, tudo o que precisamos saber está exposto ali. Todas as respostas.

O primeiro livro que li foi o célebre As Veias Abertas da América Latina (escrito em 1971), antes ainda de entrar na faculdade. Não me lembro de jeito nenhum como foi parar nas minhas mãos, mas me lembro do impacto tremendo que teve em mim, a ponto de motivar muito a minha escolha por estudar História. E alguns anos depois veio a paixão irreversível, através das Palavras Andantes (1993), livro cheio de histórias espetaculares e mágicas e de janelas através das quais entra muito sol e muito ar.    

74 anos. Demasiado pronto. Estava convencida de que ele estaria por aqui muito mais tempo. Estava acostumada com a sua presença. Claro que tem o outro lado de considerar que viverá para sempre através das suas palavras e histórias tão fascinantes, mas por enquanto não consigo pensar assim. Poucas vezes uma pessoa falou e escreveu com tanta originalidade, com tanta magia, com tanta inspiração sobre os "mesmos assuntos", que ganham nova vida e novo significado através do seu olhar.

Não se pode entender a América Latina sem lê-lo. Não se pode entender o ser humano sem lê-lo. Pode-se entender alguma coisa sem lê-lo? 

Pensei muito se poderia resumir o que ele transmite (pelo menos para mim) em poucas palavras. Vou me atrever. De uma forma ou de outra, seja escrevendo suas histórias de realismo mágico ou falando sobre política, acredito que há uma mensagem comum.  

Não ao medo. Não ao medo de sentir, de rir, de chorar, de cair, de caminhar, de respirar, de tocar, de ser humano. Não ao medo de viver. Fácil? Simples? Nem um pouco. Mas com um passo atrás do outro se pode. É possível andar pelo avesso. Na verdade, cada vez mais necessário. 

Ele foi andar por outras searas. Mas as suas valiosas palavras continuam andando conosco. E impulsionando nossos passos.

Provavelmente, ele conhece por completo a nossa existência.

Ventana sobre la memoria (IV)

Bajo la mar viaja el canto de las ballenas, que cantan llamándose.
Por los aires viaja el silbido del caminante, que busca techo y mujer para hacer noche. 
Y por el mundo y por los años, viaja la abuela.
La abuela viaja preguntando:
-¿Cuánto falta?
Ella se deja ir desde el tejado de la casa y navega sobre la tierra. Su barca viaja hacia la infancia y el nacimiento y antes.
-¿Cuánto falta para llegar?
La abuela Raquel está ciega, pero mientras viaja ve los tiempos idos, ve los campos perdidos: allá donde las gallinas ponen huevos de avestruz, los tomates son como zapallos y no hay trébol que no tenga cuatro hojas.
Clavada a su silla, muy peinada y muy limpita y almidonada, la abuela viaja su viaje al revés y nos invita a todos:
- No tengan miedo - dice. Yo no tengo miedo.
Y se desliza la leve barca por la tierra y el tiempo.
-¿Falta mucho? - pregunta la abuela, mientras va.


"Quem tem medo de viver não nasce."

Eduardo Galeano. 03/09/1940 - 13/04/2015
Escritor e jornalista uruguaio