Duas tradutoras e dois portugueses



Filipa Braga-Cielen é tradutora, portuguesa-belga e mora na Bélgica. Trabalha com os idiomas português, inglês, francês e holandês. Adora fazer artesanato e é a mãe da Eva e do futuro mano ou futura mana da Eva. Raquel Cirne Kowalczuk é tradutora, brasileira-espanhola e mora na Espanha. Trabalha com os idiomas português, espanhol, inglês e alemão. Dança flamenco há vários anos, atividade que a trouxe para a sua mágica Andaluzia. 
Por vezes, ambas têm pedidos de traduções para a variante do Português que não dominam: a Filipa recebe pedidos para o PT-BR, a Raquel para PT-PT. Foi assim que se conheceram, através de um grupo de tradutores do Facebook. Começaram a falar, colaboraram em alguns projetos, passaram informações a clientes e a comunicação não ficou por ali.


ASPECTOS POSITIVOS E NEGATIVOS DE SER TRADUTORA


FILIPA – Na minha opinião, a profissão de tradutora é a melhor profissão que eu poderia ter escolhido. Adoro os novos desafios, adoro aprender, acho que deveríamos todos estar sempre a aprender: “o saber não ocupa lugar”. Mais uma vantagem é a possibilidade de planificar o meu trabalho de forma a poder estar com a minha filha muito mais do que estaria se trabalhasse num escritório. É uma flexibilidade muito bem-vinda quando se tem crianças pequenas. A maior desvantagem para mim é o isolamento. Já sou tradutora há alguns anos, e trabalho no conforto da minha casa, em silêncio ou acompanhada pela música que escolher. No entanto, há pouca variação; não se conhecem pessoas “na vida real”, muitas vezes só pelo computador. Não há colegas com quem conversar durante o almoço ou uma pausa para o café. Mas as vantagens para mim não pesam mais do que as desvantagens! 
RAQUEL – Para mim, a tradução é fascinante e surpreendente. Talvez possa parecer uma rotina para quem veja de fora, no sentido de estarmos sempre sentadas e digitando, mas a verdade é que cada projeto é uma aventura totalmente nova e desconhecida. É um privilégio infinito poder trabalhar na santa paz da minha casinha e com um horário muito flexível – não me importo de trabalhar aos fins de semana nem até altas horas da noite porque isto, de certo modo, possibilita que de repente em uma plena quarta-feira ensolarada eu possa passear e descansar e principalmente, permite que possa continuar dedicando-me com bastante seriedade à dança, atividade que amo. Os aspectos negativos seriam mais os administrativos: muitas vezes as tarifas são baixas, os prazos de pagamento muito dilatados, uma contínua prospecção de clientes e agências... Não podemos dormir no ponto! Ainda assim, os aspectos positivos pesam muito mais.


UM PROJETO PARTICULARMENTE INTERESSANTE (OU ÁREAS COM AS QUAIS GOSTA DE TRABALHAR) E OUTRO PARTICULARMENTE DESINTERESSANTE (OU ÁREAS COM AS QUAIS NÃO GOSTA DE TRABALHAR)


FILIPA – Gosto muito de traduzir textos médicos, é uma área em que adorava especializar-me mais ainda. Estou sempre a ler coisas novas, à procura de informações para alargar os meus conhecimentos nesta área. Cada um tem os seus talentos, se eu pudesse escolher faria apenas traduções médicas e/ou para gastronomia: apesar de serem dois sectores totalmente diferentes um do outro, a gastronomia é um tema que me atrai na tradução. Os textos que mais me aborrecem são os jurídicos, até porque não tenho os conhecimentos necessários para os traduzir nem o talento para o fazer, portanto acabo por passar a colegas dessa especialidade. 
RAQUEL – Um trabalho interessantíssimo foi um texto que falava sobre os projetos brownfield, de recuperação de áreas industriais degradadas. Fiquei encantada e com muita vontade de participar de um de perto. São projetos multidisciplinares, assim como a tradução, e é muito alentador conhecer obras positivas deste tipo, feitas para tentar remediar os estragos que nós mesmos produzimos... Um trabalho que não gostei de fazer foi, por incrível que pareça (porque sou formada em História), a tradução de um texto acadêmico sobre uma revolta popular no Peru. Foi um trabalho que me envolveu muito emocionalmente e percebi que queria trabalhar com textos técnicos, dos quais gosto cada vez mais. Para mim, que danço há tantos anos, é como um equilíbrio, até mesmo porque a minha formação é toda na área de Humanas, então aprendo muitíssimo. Deixo a emoção para o flamenco e a razão para a tradução. 


PORTUGAL, BRASIL, BÉLGICA


FILIPA – PORTUGAL: Portugal é a minha pátria, o país onde nasci e onde cresci até aos meus 20 anos de idade. Tenho saudades da minha família, dos pratos típicos, dos ingredientes que são difíceis de encontrar na Bélgica (sobretudo onde moro) e, sobretudo, da boa disposição… ah, e do SOL, claro! BRASIL: é difícil de acreditar, mas eu nunca fui ao Brasil. Gostava imenso de visitar e um dia vou conseguir, nem que seja só para passar umas férias. Acho tanta graça à forma como os brasileiros falam, numa variante tão parecida e ao mesmo tempo tão diferente do português europeu! BÉLGICA: é o país onde moro desde 2004. Já morei em vários sítios na Bélgica, mas acabei por me instalar no Limburgo, perto da fronteira com a Holanda. A Bélgica tem muitos pontos positivos e foi por isso que acabei por decidir ficar por aqui. Entretanto, este país tornou-se na minha segunda “casa”, estou dividida entre a Bélgica e Portugal. 


BRASIL, PORTUGAL, ESPANHA


RAQUEL – BRASIL: O Brasil é um país caótico e admiro muito, com sinceridade, quem consegue viver lá com tantos e tantos problemas. Os brasileiros são extremamente fortes, criativos e inovadores. Sinto falta da comida, de falar e ouvir português... Gostaria muito que o Brasil desenvolvesse realmente o gigantesco potencial que tem, em todos os aspectos... Desde pequena, escuto que é o “país do futuro”, e este futuro ainda parece estar no futuro.  PORTUGAL: Portugal é um país encantador, é como se fosse um Brasil antigo. Adoro ver as placas das ruas com nomes como “Rua da Bica”, “Rua do Oleiro”... As pedras tão características no chão... E os azulejos, meu Deus!!! A arquitetura, a comida tão divina... Adoro estar em Portugal mas também dá um grande aperto no peito, tipo: “Por que o Brasil não está assim tão pertinho?” ESPANHA: A Andaluzia é o meu paraíso particular. Amo viver aqui. Muito sol e temperaturas amenas quase todo o ano, segurança, pessoas encantadoras e divertidas, uma história imponente... Acho importante dizer que sempre tive, e continuo tendo, oportunidades profissionais muito boas. Aquilo de que “os latinos só fazem os trabalhos ruins” já não encaixa muito bem. Sempre fui respeitada e tratada com muito carinho. E claro, posso viver o flamenco mais autêntico, que é uma bênção para mim.


EXPRESSÕES PORTUGUESAS ENGRAÇADAS E SEU SIGNIFICADO


FILIPA – A língua portuguesa é tão rica em expressões idiomáticas! E, muitas vezes, estas expressões são engraçadíssimas porque se pensarmos numa imagem a acompanhá-las, é impossível não rir. Penso, por exemplo, em “estar à sombra da bananeira” (estar despreocupado) ou “coisas do arco da velha” (coisas disparatadas, insólitas, mirabolantes). 


EXPRESSÕES BRASILEIRAS ENGRAÇADAS E SEU SIGNIFICADO


RAQUEL – O português do Brasil é extremamente engraçado. Tem uma sonoridade muito vocálica, em função da rica contribuição das línguas africanas e indígenas. Podemos inclusive dizer uma frase só com vogais: “Ó O AUÊ AÍ Ó” – “Olha a confusão aí, olha!”. Outras: “Se acha a última bolacha do pacote”, uma pessoa que se acha importantíssima. “Te peguei na tampinha!”, quando surpreendemos alguém fazendo alguma coisa escondida... E também têm as regionais do Rio Grande do Sul, de onde sou, bem gaúchas, como “chorar as pitangas”, reclamar, choramingar, e “essa aí é facão na bota”, uma mulher com gênio e personalidade fortes. 


O QUE ACHA INTERESSANTE QUANDO ESCUTA OU LÊ O PORTUGUÊS DO BRASIL


FILIPA – O português do Brasil é muito musical. Adoro ouvir músicas nesta variante do português, porque têm uma sonoridade exótica, animada, mas que ao mesmo tempo consegue ter uma calma e transmitir uma grande paz. Tudo soa mais ligeiro, acho que é uma variante lindíssima. Também acho interessantíssimo observar as diferenças entre as duas variantes e a forma como a cultura e a história acabou por ter uma grande influência para a evolução da língua em ambos os continentes.


O QUE ACHA INTERESSANTE QUANDO ESCUTA OU LÊ O PORTUGUÊS DE PORTUGAL


RAQUEL – Também acho que é como se fosse um português antigo, e acho muito bonito. Gosto de palavras como “bocadinho”, mas dita com o genuíno sotaque português! Se um brasileiro disser esta palavra, vai virar “bocadjinhu” e então perde a graça. Gosto do “estar a fazer” ao invés de “fazendo”, acho muito fofo quando dizem: “A Maria quer vir”, ao invés de “Tu (ou você) queres vir”? E bueno, o que dizer do fado... É arrepiante, de verdade, e não quero que soe a estereótipo. Acredito que as manifestações culturais tão únicas de cada país deveriam ser muito mais valorizadas, como o próprio samba por exemplo, que não é só rebolar quase sem roupa, já que tem, como todas as outras, uma história muito intensa e muito rica por trás...  


UMA SITUAÇÃO CURIOSA QUE TENHA VIVIDO NO PAÍS EM QUE MORA, EM FUNÇÃO DO IDIOMA


FILIPA – Antes de partir para a Bélgica em ERASMUS, tinha seguido um curso muito intensivo, mas muito breve de neerlandês em Lisboa. As aulas eram dadas por um professor holandês (da Holanda, e não da Bélgica/Flandres, portanto). As poucas expressões que eu conhecia eram, assim, ditas com um sotaque holandês fortíssimo (o senhor era de Roterdão). Quando cheguei à Universidade e comecei a conhecer gente, admirava-me imenso com a forma como falavam e não entendia nada. Parecia que estava perdida! Demorou algum tempo até eu entender a diferença: a “língua” que os meus colegas de turma e as outras pessoas que conhecia, falavam, era flamengo, não era holandês! Um sotaque muito diferente, as palavras têm uma sonoridade completamente diferente. Felizmente que as minhas aulas eram todas em Francês e Italiano! 
RAQUEL – Aprender um idioma nos livros não tem nada a ver com vivê-lo na prática. Quando a gente chega em outro país, não entende nada, todos falam muito rápido, utilizam expressões muito específicas, comem letras... Exatamente como nós mesmos fazemos!! Vivi inúmeras situações curiosas e com certeza continuarei vivendo-as, mas hoje vou contar uma bem engraçada e “bilateral”, digamos. Estando aqui há poucos meses, com a fala bem contida, por alguma razão que já não lembro, estava na casa da minha sogra, só eu e ela. E me doía a barriga. Ela, tentando agradar, disse: “¿Quieres una manzanilla?” E eu respondi (em espanhol): “Não, obrigada, não estou com fome”. Entendi que ela estava oferecendo-me uma “maçãzinha” e achei muito estranho, porque tinha dito que estava com dor de barriga. Ela, por sua vez, também deve ter achado muito estranha a minha resposta, deve ter pensado algo do tipo: “mas o que que chá de camomila tem a ver com estar com fome?” Ela nem deve lembrar-se, e eu só fui entender um bom tempo depois e vou dar risada sempre. 


FERNANDO PESSOA AFIRMOU QUE "A MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA”. DEPOIS DE TANTOS ANOS MORANDO FORA E TRABALHANDO COM DIFERENTES IDIOMAS, CONCORDAS COM ELE? TENS ESTE SENTIMENTO?


FILIPA – Sim, subscrevo. A língua portuguesa faz, e continuará a fazer sempre, parte de mim. Falo português todos os dias, com a minha mãe ao telefone, e com a minha filha de dois anos (que também já vai percebendo umas coisas). Trabalho com esta língua todos os dias e traduzo praticamente apenas para Português. Leio livros em Português, tento fazer o mais possível em Português e tento seguir a atualidade na minha língua, mesmo morando longe há quase 12 anos. Portanto, acho que posso dizer que, em parte, “a minha pátria é a língua portuguesa”. 
RAQUEL – Sim, é o que sinto. É verdade que a estas alturas, o meu cérebro é praticamente 50% português e 50% espanhol, mas o coração também fala e fala mais em português. E ao estar longe, acredito que este sentimento tenha até se tornado mais intenso. O meu marido é espanhol e falo com ele, desde sempre, em português. Só que ele me responde em espanhol. E escutar português é uma identificação direta, é como se o interlocutor entendesse não só o que eu digo mas também tuuudo o que eu sinto (mesmo que seja português e não brasileiro), como se visse comigo tudo o que eu vejo quando digo cada palavra – e vice-versa, sem dúvida... Talvez tudo isso que está invisível e que a gente só vê e compartilha através da língua seja o sentimento de pátria, quem sabe...  E sim, a minha pátria (e mátria) é a língua portuguesa.

FILIPA BRAGA-CIELEN, formada em Línguas e Literaturas Românicas, é tradutora profissional desde 2010 e trabalha principalmente com as áreas de Culinária, Turismo, Medicina e Traduções Gerais.
 
RAQUEL CIRNE, formada em História, com pós-graduação em Gestão do Patrimônio Histórico e Tradução de Espanhol, é tradutora profissional desde 2013 e trabalha principalmente com as áreas de Engenharia, Turismo, Jurídica e o Setor Empresarial.